A gravar


Tlin-trlin...

Acordou com o som de uma moeda a cair ao chão. Levantou-se a custo porque o cimento enrigesse os ossos e não amacia os músculos.

Penteou-se com os dedos, desceu as mãos pelos ombros e limpou as migalhas do casaco.

Espreguiçou-se de olhos fechados, levantou bem alto os braços como que a tocar o céu e puxou-os para trás arqueando as costas.

Sacudiu os pés para soltar os sacos que o vento lhe deixara durante a noite e pegou no saco-cama, uma caixa de cartão que dobrou com mil cuidados. Por fim guardou a moeda no sapato arejado, quase sandália.

Colocou-se a caminho. Parou em frente a uma montra de televisores. Sorriu para a câmara de segurança. E voltou a sorrir novamente. Abriu a boca, inspecionou os dentes que lhe restavam, tentou tirar um sem sucesso. Num esgar dor, deu uma palmada na bochecha, cuspiu no chão e seguiu.

Tropeçava na ligadura solta, já castanha de suja do penso que tinha na perna ulcerada; sem preocupações, afinal quando fizessem o penso iam-lhe trocar a ligadura.

Gostava de ir ao Centro de Saúde, lá a temperatura estava sempre quentinha e podia desfazer a barba na casa de banho. Só não compreendia porque lhe diziam que era diabético! Como podia ter os açúcares altos se quase não comia? Quando o picavam, esperava que na máquina aparecesse um valor baixo, era bom sinal; pensava, davam-lhe de comer.

- Bom dia Sr. Mendes, como está?

- Não podia estar melhor -sorriu- apareci na televisão, veja lá…!