
Numa avenida movimentada, um senhor idoso de bengala na mão atravessou devagarinho a passadeira. Na outra berma esperava-o o seu cão com a trela pousada no chão.
O homem tremia com o peso apoiado na bengala de madeira, preparando-se para a aventura de atravessar a rua. O sinal abriu para verde e ele repirou fundo, segurou com força a bengala e na outra mão apertou nos dedos o saco com a medicação que trazia da farmácia.
Caminhava com cuidado, vagarosamente, despistando as pedras soltas que se afiguram como perigosas armas a quem tem osteoporose num estado avançado.
Subitamente, o sinal ficou vermelho para peões e ele ainda nem tinha atravessado metade da avenida. Condutores ansiosos apitavam, outros delocavam-se lentamente na sua direcção. Visivelmente nervoso, deixou cair o saco com os medicamentos no chão. Os carros continuaram a apitar cada vez mais enfurecidos, o seu cão começou a ladrar, abanando a cauda como se o estivesse a chamar.
Alguém foi ajudá-lo a apanhar o que tinha espalhado na passadeira, não agradeceu. estava demasiado nervoso para isso.
Passo a passo atravessou a rua, mesmo depois do sinal mudar de cor duas vezes, mesmo enquanto lhe apitavam. Quando chegou à outra margem afagou a cabeça do cão e juntos seguiram o seu rumo.
Acredito que ali e naquele momento, o senhor se sentiu a criança traquina que outrora cruzara a rua na bicicleta com todos os seus amigos de infância a correr atrás dele...
Afinal, tinha desafiado o trânsito, a sua juventude, e o tempo.