Cirque du Soleil



Nesta tenda de circo que é a vida, todos temos um papel definido. Haverá os que nasceram para eternos espectadores, para se regalarem com o espectáculo alheio e cansar as mãos em palmas. São a voz passiva do discurso directo. Uns por cobardia, outros por pura preguiça.

Retirados esses, sobra a "troupe" do circo, propriamente dita, para os quais a vida é uma caravana em constante tourné pelo mundo. Os que vivem sob a luz dos holofotes, de frente para as bocas escancaradas, os que fazem os sonhos alheios e têm a vida sempre acompanhada por uma banda desafinada e um apresentador de entoação nasalada. São os verbos conjugados no futuro de todas as frases. Desses, há os que gostam de desafiar esse mesmo futuro. A literatura chama-lhes poetas. Na tenda do circo são os que elevam os olhares e as cabeças e fazem descer todos os queixos. São equilibristas-malabaristas. Vivem onde os sonhos começam, junto ao tecto da tenda, sobre as cabeças dos espectadores. Arriscando o absurdo e a vida, avançam num arame ortográfico, girando palavras e sentidos, em números cada vez mais desafiadores e apenas aparentemente misturando o que é com o que poderia ser. E por muito que a gravidade lhes acene um mundo de pés no chão e sem metáforas, escolherão sempre a beleza como razão para dar o derradeiro salto mortal; essencial e acessório.