Uma história de Laranjas


Acordava jà procura do cheiro da fruta pela manhã. Os sábados começavam de pijama e eu tropeçava entre as tuas pernas a fingir que sabia dançar. Queria ser bailarina, lembras-te? O sol entornava-se em pequenos vagares pela mesa e tu contavas histórias com principio e sem fim para que eu pudesse imaginar tudo – avó, e depois? – e depois era eu que te guiava no meio de princesas e lobos maus. Sentavas-te naquele banco de madeira velha e oferecias-me os gomos das laranjas mais doces e sumarentas que te passavam pelo colo: toma lá que estas são as que tu gostas...e os meus olhos ampliavam-se nos teus enquanto os sonhos cresciam, cresciam...
Ficou-me na memória do sabor doce das laranjas que nasciam dos teus dedos e os sonhos.
Continuo a não saber dançar, às vezes ainda tropeço... (e tu que não estás cá para me pegar ao colo e me enfeitar o cabelo com margaridas!)
Mas contigo aprendi a levantar-me e a escutar a sonoridade dos dias...consegues ouvir este ritmo? Tenho em mim a vida a crescer!
Agora, novos projectos se desenham, de sorriso estampado nos olhos, movidos pelo motor do coração.
Encosto esta janela, devagarinho, ao mesmo tempo que olho com emoção a laranjeira em flor e adivinho o sabor doce da laranja que está para vir...